leitura acompanhada
Nesse percurso de leitura proposto pelo Para escrever, leremos, ao longo de 4 encontros, a tragédia de Sófocles na tradução de Guilherme de Almeida, com condução de Lilian Sais, para, na sequência, lermos, ao longo de mais 4 encontros, a tradução proposta por Anne Carson e vertida para o português por Julia Raiz, que fará a mediação desses 4 encontros finais.
Sem sombra de dúvida, há muitos tipos de prazer, ensinamento ou mesmo de benefícios que podem ser derivados da tragédia ática, e uma peça do calibre de Antígona pode agir sobre nossas mentes e emoções de muitas formas diferentes também. Composta por Sófocles consideravelmente antes de Édipo Rei, a tragédia Antígona trata do destino dos filhos de Édipo – mais especificamente, de sua filha que dá nome à peça, mas também do destino de seus irmãos – Etéocles, Polinices e Ismene.
Na Antígona de Sofocles, como Polinices morreu em campanha contra a cidade, Creonte estabelece que, enquanto Etéocles deve ser sepultado com todas as honras fúnebres possíveis e cabíveis a um defensor da pátria, o irmão, por sua vez, deve permanecer insepulto, servindo de alimento aos cães e às aves de rapina, pois morreu como um traidor. Ele coloca junto ao cadáver guardas que devem vigiar o morto e garantir que nenhuma honra fúnebre ou sepultamento lhe sejam prestados.
A peça começa com Antígona, irmã de ambos, revelando a Ismene, também sua irmã, o seu plano: ela irá sepultar Polinices, mesmo que, em última instância, desrespeitar o decreto de Creonte signifique que ela receberá a pena de morte.
Antígona é uma protagonista feminina que transgride as normas estabelecidas para o seu gênero: visando a fazer o que julga correto, ela passa por cima da lei dos homens, defendendo aquilo que ela afirma ser a lei não escrita: a divina. Por lei dos homens, aqui, deve-se entender tanto a lei humana, terrestre, como, consequentemente, a lei imposta pelo gênero masculino, uma vez que eram os varões os responsáveis pelas normas e decretos que deviam ser seguidos. Seu oponente no drama (o defensor das leis dos homens e autor do decreto que Antígona transgride) é Creonte, irmão de Jocasta, tio e guardião de Antígona, governante de Tebas. A transgressão: conceder honras fúnebres a Polinices, o irmão que morreu combatendo para invadir a cidade de Tebas.
Em Antigonick, Anne Carson oferece uma tradução singular da tragédia clássica de Sófocles. Sem abrir mão da força do original, ela assume a liberdade para reinventar ritmos, imagens e vozes, aproximando um dos textos fundadores da literatura ocidental da sensibilidade contemporânea e preservando toda a intensidade do confronto entre a lei do Estado e a consciência individual.

é escritora, tradutora e agitadora cultural. Tem doutorado em literatura (UFPR) com ênfase nos estudos feministas da tradução e oferece oficinas de escrita há mais de dez anos. De Anne Carson, traduziu Eros, o doce-amargo, A beleza do marido (com Emanuela Siqueira) e Antigonick, todos pela Bazar do Tempo. Recebeu o prêmio Professor João Crisóstomo Arns da Câmara Municipal de Curitiba pela atuação na área de cultura e educação. Seu trabalho transita entre poesia, prosa, ensaio e ação performáticas. Para saber mais: juliaraiz.com.br | @julia.raiz

É escritora, pesquisadora, educadora e produtora de podcasts. Mestra e Doutora em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo, é especialista em poesia épica grega e em tragédia grega, com ênfase em temas como a astúcia, as personagens mulheres e o feminino. Dedica-se, também, ao estudo de estruturas narrativas e de poesia contemporânea escrita por mulheres. Tem 9 livros publicados. Venceu o prêmio Cepe Nacional de Literatura, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, semifinalista do prêmio Oceanos e ficou em segundo lugar no prêmio literário da Biblioteca Nacional.
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